INSTITUTAS DE CALVINODa liberdade Cristã - Livro 3 - Capítulo 19 - Paragrafo 9
A LIBERDADE CRISTÃ NÃO PROPICIA OS EXCESSOS DA OSTENTAÇÃO E DO LUXO, COMO PRETENDEM OS ESPÍRITOS IMODERADOS
“Todas as coisas são puras para os puros; para os corruptos e infiéis, porém, nada é puro, visto que sua mente e sua consciência estão corrompidas” [Tt 1.15]. Ora, por que os ricos são amaldiçoados, porque têm sua consolação, estão fartos, agora riem [Lc 6.24, 25], dormem em leitos de marfim [Am 6.4], ajuntam campo a campo [Is 5.8], cujos festins têm cítara, lira, tamboril e vinho [Is 5.12]? Certamente que marfim, ouro e riquezas são criações boas de Deus, de fato permitidas, destinadas pela providência de Deus ao uso dos homens. Tampouco, jamais se proibiu rir, ou fartarse, ou adicionar novas propriedades às antigas e provindas de herança, ou deleitarse em um concerto musical, ou beber vinho. Certamente que isso é verdadeiro. Mas onde está à mão abundância de coisas para chafurdar-se em deleites, e nestes espojar-se, a mente e o coração inebriar de prazeres do momento e estar sempre anelante por prazeres novos, estas coisas se acham muitíssimo distanciadas do legítimo uso dos dons de Deus.
Portanto, ponham fim à cupidez imoderada; ponham fim à prodigalidade descomedida; ponham fim à vaidade e à arrogância, para que, com uma consciência pura, usem com pureza os dons de Deus. Quando o coração se afeiçoar a esta sobriedade, então eles terão a regra do uso legítimo. Por outro lado, se esta moderação estiver ausente, todos os deleites vulgares e comuns serão desmedidos. Ora, isto se diz com verdade: debaixo de uma vestimenta grosseira e rude costuma esconder-se um bom bebedor; debaixo da roupa pobre costuma esconder-se um ânimo de púrpura; e, ao contrário, debaixo da púrpura e da seda às vezes se esconde um coração humilde.
E assim, viva cada um em sua condição, ou pobremente, ou modestamente, ou abastadamente, de tal modo que todos se lembrem de que são por Deus alimentados para que vivam, não para que se esbaldem no luxo. E pensem que nisto consiste a lei da liberdade cristã: se aprenderam com Paulo que, nas circunstâncias em que se encontram, devem estar contentes, se sabem tanto ser humildes quanto viver em esplendor, se foram ensinados por toda parte e em todas as coisas a ter fartura, a ter fome, a ter abundância, a sofrer penúria [Fp 4.11, 12].
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